RELATÓRIO DO ABISMO — ENTIDADE PERSEGUIDORA
DESIGNAÇÃO: “AMIGO”
O “Amigo” é uma entidade predatória que assume a forma de um cão doméstico para se infiltrar no convívio humano. Seu comportamento é indistinguível de um animal comum: dócil, leal e carente. Essa imitação é perfeita — até o momento em que um vínculo emocional é estabelecido com a vítima.
Uma vez criada afinidade suficiente, a entidade revela sua verdadeira forma.
A criatura assume uma anatomia bípede, com aproximadamente dois metros de altura. Seu “rosto” é inexistente — substituído por uma abertura escura e profunda, semelhante a um vazio abissal que parece absorver luz, som e percepção.
O contato prolongado com a entidade causa efeitos cognitivos severos:
— Alucinações visuais e auditivas
— Distorção e reescrita de memórias
— Desenvolvimento de dependência emocional extrema
A vítima passa a enxergar a criatura como algo essencial à sua própria existência, desenvolvendo um comportamento obsessivo de cuidado e atenção.
Assim como um animal doméstico, o “Amigo” exige afeto constante.
Quando esse nível de atenção deixa de ser suficiente, a entidade inicia sua fase predatória.
Em sua forma verdadeira, o “Amigo” utiliza estímulos sensoriais — como sons sutis e a constante percepção de um líquido gotejando de sua “face” — para atrair sua vítima. Ele se aproxima lentamente, quase imperceptível.
Relatos indicam um padrão consistente:
Ao desviar o olhar, a entidade se move.
Ao encarar, a vítima é atraída.
Esse ciclo se repete até que a distância entre ambos seja anulada.
No estágio final, a vítima se aproxima voluntariamente da abertura abissal e é consumida.
Sem resistência.
Sem luta.
REGISTRO DE AVISTAMENTO:
A entidade já foi relatada em múltiplas residências ao longo do tempo.
Seu registro mais recente ocorreu no orfanato abandonado conhecido como “Lar das Borboletas”. Testemunhas relataram uma criança interagindo com um suposto cão.
Horas depois, a mesma vítima foi encontrada nas catacumbas do local.
Sozinha.
CAPACIDADES OBSERVADAS:
— Alteração de forma (canina ↔ forma verdadeira)
— Indução de alucinações auditivas e visuais
— Manipulação emocional e psicológica extrema
— Locomoção anômala quando fora do campo de visão
— Capacidade de consumo dimensional através da cavidade facial
AVALIAÇÃO DE AMEAÇA:
NÍVEL DE LETALIDADE — EXTREMO
A principal ameaça não é física, mas psicológica. A vítima perde completamente a capacidade de agir contra a entidade devido ao vínculo afetivo imposto.
Encarar diretamente a entidade por períodos prolongados resulta em comportamento suicida induzido.
RECOMENDAÇÃO TÁTICA:
— Evitar qualquer forma de contato inicial
— Não permitir criação de vínculo emocional
— Neutralizar imediatamente ao primeiro avistamento
— NÃO interagir
NOTA DO VIAJANTE:
Apesar de sua natureza predatória, a entidade apresenta limitações cognitivas.
Foi observado que a presença de um “olhar falso” — como uma máscara posicionada na parte posterior da cabeça — pode interferir em sua mobilidade, levando-a a agir como se estivesse constantemente sob observação.
Curioso.
Mesmo assim… não é o suficiente.
Algumas criaturas parecem mais interessantes no papel do que na realidade.
Vou corrigir isso.
Essa será minha última nota.
Adeus, “Amigo”.